quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Lorotinha Parte Três. 2ª Edição

Teresópolis. Lugar calmo e fresco onde a sua vó vai sempre para fugir do Verão. É um lugar onde aquele dedinho de Deus tocou sem pudores para deixá-lo ainda mais sereno e acolhedor. Teresópolis, na nossa vida, sempre esteve lá. E sempre existiu o apartamento de terê. 

Era um apê simples, ele nunca quis ser mais nada do que um 2 quartos com um banheiro. Os seus dois humildes quartos ficam um do lado do outro em que suas respectivas janelas são juntas, separadas somente por uma parede. Quer dizer, pode ser que já tenha sonhado com uma suíte certa vez. Coitadinho, mas ele não tem culpa de nada. Querer ser uma mansão, quem sabe, aí sim ele iria para o Inferno.

Além de vovó, todos nós gostamos um pouco de fugir do Verão. Não podemos ser egoístas e querer deliberadamente tomar o lugar do nosso querido gringo na nossa praia. Que aburdo! E então estávamos todos lá, socializando na madrugada sala adentro como normalmente os normais fazem, ou quase isso. 

Bebida, joguinhos, bebida, cigarros, cartas. Era realmente um dia monótono na vida de adolescentes transgressores das leis que não estavam transgredindo nada. Chato. Bebida, joguinhos, bebida, cartas. Chato. Nem uma maconhazinha ou muito menos um strip poker para animar a todos. 

O grupo estava lá, meio altinho, quase sóbrio. Até tinha alguém ganhando no Imagem & Ação. Acontece que nem na sua e nem na vida de ninguém isso ia ficar assim. Chato. Obviamente cada um foi querer fazer algo mais interessante. Sei lá, tentar ganhar uns beijinhos de umas das meninas, quem sabe. Mas se você já tem uma namorada, não tente fazer isso com ela no mesmo apartamento de verão que você esteja. 

Chato. Um dos meninos vai ao banheiro. Só Deus sabe o que o banheiro tem a oferecer melhor que aquela monotonia de sempre. Seria mais do que miraculoso se o dedinho de Deus aprontasse de novo e colocasse uma stripper no banheiro. Aí sim o apartamento iria agitar. Mas Deus, em sua infinita sabedoria, pôs o dedinho no meio mas não pôs a stripper. É, acontece com todo mundo e com certeza vai acontecer com você, amiguinho.

O cara do banheiro termina seus trabalhos e olha envolta. Esquerda, chatice. Direita, cama. Não tem muito o que escolher, a profundidade da questão não é maior do que a de um pires. Cama. 

Cama, cama. Teto, teto. Lustre. Olha, estrelas! Sim, Teresópolis não tem a delicadeza da poluição e muito menos a suavidade de um trânsito. Imagine! No máximo ela é prima em terceiro grau de uma cidade grande. Mas entenda, as estrelas encantam. Já dizia Neil Gaiman que elas são gostosas pra caralho e com certesa confirmado por Yvaine.

Estrelas, janela, estrelas! O sopro do vento gelado bate no rosto e ele olha para o outro lado. Olha pra cima, olha pra baixo, esquerda, direita, esquerda de novo. É ali que percebe a outra janela, aquela mesma daquele quarto que um dia já quis ser uma suíte. Baixo, cima, direita de novo. Para Tico e Teco não há confusão. Quem não iria pensar em atravessar quase três da manhã de uma janela para a outra? Imagine só, o que todos nós teríamos a perder? Obiviamente, ninguém tem problema com um braço a menos ou uma perna quebrada. 

A idéia do cara é tão inacreditável como uma nota de três reais. E talvez por isso que ela se fincou ainda mais entre os dois esquilos. Tadinhos, estavam mais do que abobalhados com as estrelas. Primeiro mão, é sempre bom ter onde se segurar se alguma coisa der errado. Depois pé. E, por último, todo o resto.

Homem! Mulher! Preto! Branco! Michael... Jackson? E fim de jogo. Elas ganharam, sempre ganham. Mulheres são sempre como aqueles bichinhos peludinhos fofos que dão medo e mesmo assim a gente cuida deles. Elas obviamente tem um código secreto para vencer no Imagem & Ação, talvez uma piscada de olho a mais ou um mamilo rígido. A gente ainda aprende. E então, quem quer jogar de novo?

Estava chato e quente. Era melhor com um ar-condicionado, pelo menos. Ou não. Melhor pensar que é um absurdo falar que falta alguma coisa na terra que Deus está sempre cutucando com seu dedinho. Então uma delas levanta e vai pro quarto. E falar que Deus não tem senso de humor mesmo tendo criado o onitorrinco é sacanagem. Obviamente acendendo a luz ela vê: janela, mão, pé e todo o resto.

Três da manhã, segundo andar e uma cidadezinha do interior. Um desajeitado e másculo oi faz o cachorro do vizinho uivar nervosamente para a lua com medo do agudo do grito da garota. O susto foi maior do que língua de manicure. Ele quase cai nove metros abaixo, com medo do medo ela. A garota imóvel ainda tentava entender que merda era aquela. Porque o imbecil pula de uma janela pra outra no exato momento que você está acendendo a luz? São três da manhã! Ele vermelho que nem pimentão pede desculpas e tenta explicar que a legaucidade da parada era ver que o espírito de Peter Pan persiste. Do nada ela começa a rir, agora sim todos acham que ela pirou. 

Chamar a mãe de profissional do sexo entre mais e mais risadas foi leve. Só quando um gritado PORRA PENSEI QUE FOSSE UM LADRÃO, SEU FILHO DA PUTA saiu é que ele riu também. Depois disso, só risadas e histórias disputadas de que eu tive o melhor ladrão na minha casa. O dedinho safado de Deus ainda está lá, como sempre, pronto para cutucar as melhores férias.



Por Robusti*

Um comentário:

Neo disse...

Demorei pra entender que o "Fim de jogo" era do Imagem & Ação...

...que susto.